terça-feira, 5 de abril de 2011
O crente e o crido
Como esconder?
Como negar?
Como evitar?
Não tento evitar.
Não tento negar.
Não tento esconder.
Por que esconderia?
Por que negaria?
Por que evitaria?
Eu creio...
E se creio, sigo.
E se sigo, me canso.
E se me canso, paro.
Eu paro...
Quando paro não descanso.
Quando não descanso me desespero.
Quando me desespero ele me espera.
Eu me desespero...
Desesperado não o alcanço.
Não alcançado ele me busca.
Alcançado sigo crendo.
Eu sigo.
Eu creio.
Eu sou crente.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
A milésima mensagem de Natal
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Eu só penso em comida quando estou com fome
Depois de tomar café, eu ia pra escola, ou ia brincar ou ver tv, se fosse sábado ou domingo. Algumas horas depois a fome ressurgia. Eu corria pra cozinha e lá estava a mesa posta: o feijão cheiroso, o arroz quentinho, as batatas fritas e a carne assada. Como num passe de mágica... eu pensava e comida aparecia.
Mas minha mãe dizia que na noite anterior, depois que a gente dormia, ela escolhia o feijão e deixava de molho. De manhã cedo, enquanto preparava o café, ela tirava a carne do congelador e colocava o feijão pra cozinhar. Depois de tirar a mesa do café e lavar a louça, ela descascava as batatas enquanto via tv. E entre uma limpeza e outra, preparava a carne, verificava a panela de pressão. Entre um telefonema e outro, verificava o arroz e a carne no forno. E, quase na hora, parava tudo e fritava as batatas. Então, arrumava a mesa e gritava: "Crianças, vêm comer!"
Minha mãe achava que eu não entendia e tentava explicar como a mágica acontecia. Mas eu dizia: "Mãe, não precisa inventar coisas. Eu sei como acontece. Eu penso e aparece." E a mágica se repetia dia após dia, ano após ano. Tinha fome, pensava na comida e ela aparecia. E, assim, saciado crescia.
Um dia, já homem crescido, saí de casa. Fui cuidar da minha vida. Acordava sempre em cima da hora e, enquanto tomava banho, o pão ainda estava na padaria, o leite na geladeira e o café ainda era pó. E se eu não fizesse nada, lá eles ficariam. Então, depois de tomar café, seguia.
Algumas horas se passavam e a fome voltava, me lembrando de que comer era preciso. Mas a carne estava no freezer, o feijão no armário e as batatas não havia. Faria um miojo, mas o gás depois de seis meses acabava de repente. Só me restava achar um McDonald's.
Minha mãe tinha razão. A vida é um processo. E isso é incrivelmente mágico!
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Carta aberta ao Pastor Silas Malafaia
Por isso, resolvo publicar aqui uma carta aberta ao Pastor Silas Malafaia me esforçando para ser o mais respeitoso possível, embora minha indignação exigisse um pouco mais de ferocidade. Mas me contive.
Não tenho a intenção de ofender a ninguém. Tenho muitos amigos que são grandes admiradores do Pastor Silas. Mas já faz tempo que acredito que suas palavras e práticas têm se distanciado do evangelho de Jesus Cristo.
Tampouco estou fazendo campanha eleitoral para quem quer que seja. Tenho minhas opiniões sobre alguns dos candidatos e isso fica claro em meu texto, mas ainda não tenho voto definido.
Com muito amor e temor,
Gil
CARTA ABERTA AO PASTOR SILAS MALAFAIA
Pastor Silas Malafaia,
Como profeta de Deus, o senhor declarou abertamente seu voto à Marina Silva: “Amigos, vcs já sabem em quem votar? Eu votarei em Marina, para presidente. Ela é uma mulher de Deus e merece nosso voto”. Recentemente, porém, declarou mudança de voto, assumindo apoio ao candidato José Serra. Não estou surpreso com a mudança de opinião do senhor, Pastor Silas, afinal, vi o senhor mudar de opinião muitas vezes ao longo desses anos. Em seus programas, vi o senhor criticar ferozmente pessoas e idéias, a quem mais tarde o senhor se aliou.
Estou surpreso, porém, com as justificativas para tal mudança. Desde o começo de sua campanha, a candidata Marina Silva vem expressando sua opinião a respeito da descriminalização do aborto e da maconha, bem como a respeito da união civil entre homossexuais. Exatamente por sua fé evangélica, os entrevistadores nunca perdem a oportunidade de questioná-la com respeito a estes assuntos. Então, a defesa de um plebiscito sobre aborto e maconha tem sido anunciada faz tempo pela candidata Marina Silva, no curso de uma campanha ética e respeitosa, sem negar suas raízes petistas e tampouco suas convicções pessoais.
É muito estranho que só agora, há menos de uma semana das eleições, o senhor, um homem tão antenado, tenha tomado conhecimento disso. No dia 20 de setembro via Twitter o senhor diz que Marina é uma “mulher de Deus”. No dia 28, o senhor a chama de “cristã dissimulada”. Que fato novo surgiu em uma semana para que sua opinião mudasse radicalmente?
Em carta recente enviada a integrantes do PT, o senhor afirma: “eu só não entrei de cabeça na campanha do Serra, porque também não vi nele garantias de respeito a esses princípios”. Essas garantias existem agora? O senhor realmente conhece as opiniões dele a respeito desses assuntos? É do conhecimento do senhor que quando José Serra era ministro da saúde seu ministério foi pioneiro nas campanhas “contra a homofobia”? Basta acessar o link no Youtube e conferir: http://www.youtube.com/watch?v=nFilGre8XQo.
Pastor Malafaia, o senhor tem emprestado seu apoio a gente que levanta a voz contra o aborto e o casamento gay (essas coisas se tornaram sua bandeira), mas que está extremamente comprometida com o atual governo do PT ou tem em seu currículo processos por desvios de dinheiro, mau uso da coisa pública, entre tantos outros crimes. O senhor se aliou a pessoas como Anthony Garotinho e a gente que não tem compromisso com a justiça social. Com que autoridade o senhor se refere à Marina Silva como “crente dissimulada”?
Que Deus tenha misericórdia de nós!
Na comunhão,
Gilberlei Oliveira
sábado, 24 de julho de 2010
Único Caminho
a caminhar com Deus.
O caminho é a caminhada,
e apenas começamos.
A estrada é a conversa,
o descanso é o silêncio.
Não é sobre caminhar,
é sobre caminhar com Ele.
Não é como fazer esteira,
é como andar na rua.
Não é como viver no tempo,
é como viver na vida.
E tudo que preciso
é continuar caminhando.
Caminhando com Deus...
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Espessa Eternidade
Cedo a mim tanto quanto resisto.
À procura de mundos dentro de mim,
Em busca de mundos fora de mim.
Resisto aos outros tanto quanto cedo.
Insatisfeito com o que encontro em mim,
Infeliz com o que encontro em outros.
Estou vagando entre mundos parecidos.
Ignorante do que procuro,
Desinteressado pelo que encontro.
Mas sigo vagando, buscando...
Vezes esperançoso, vezes desesperado.
Se as pernas duvidam, hesitam
O coração insiste, resiste.
Se as pernas não sabem aonde vão
O coração sabe de onde vem.
E seguem vagando, buscando...
Em frente, em círculos, pra trás,
Pela espessa eternidade.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
coração sitiado
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Ele desceu!
Os montes tremeriam diante de ti!
Como quando o fogo acende os gravetos e faz a água ferver,
desce para que os teus inimigos conheçam o teu nome
e as nações tremam diante de ti!" [Isaías 64:1,2]
Finalmente, o clamor do profeta foi ouvido. Deus desceu. Se mudou pra Terra sem mala nem cuia. E nós, seus inimigos, conhecemos seu nome. Não satisfeito, mudou-se de novo, agora, pra dentro de nós, definitivamente!
O Natal não é apenas mais uma festividade no calendário cristão. É a inesquecível lembrança de um dos momentos mais dramáticos da História. É o culminar das contrações do ventre de um Deus "que amou o mundo de tal maneira..."
Enquanto celebramos este Natal com nossas famílias e amigos, não nos esqueçamos de que Jesus ainda precisa ser conhecido por milhões de pessoas do planeta visitado, que, embora estejam celebrando a Noite Feliz assim como nós, talvez não entendam o que significa "... que deu seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna."
Em suas majestosas roupagens de glória,
Resolveu parar; e assim um dia
Ele desceu, e pelo caminho se despia." [George Herbert]
domingo, 18 de outubro de 2009
Fraco e Forte
Forte que nem um barbante
Mais forte que uma pedrinha
Mais fraco que um diamante
Mais fraco que pouca força
Mais forte que muita fraqueza
Mais forte que uma moça
Mais fraco que sua beleza
Tão fraco quanto alguém
Mais forte que nenhum
Tão forte quanto ninguém
Mais fraco que qualquer um
Pra uma vida tão morte
Pra uma morte tão vasta
Só um amor de tal sorte
Só uma graça que basta
Quando nem força pra rima
Quando tão fraco pro choro
Fortemente fraco então
E fragilmente forte enfim
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Sentimentos, perspectivas e... situações
Nestes terríveis momentos
Os maus pensamentos me querem levar
A um extremo de vida
Que meu equilíbrio se deixa enganar
Instantes que se prolongam tentando mudar
Tudo que já se fez novo, pois Cristou mudou
Tentando hoje trazer o que eu tento esquecer
Sou vencedor e ninguém poderá me deter
Pois eu sei que jamais eu provado serei
Além do que eu possa suportar
E se ainda eu cair e pensar que é o fim
Jesus me ergue e segue junto a mim.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Meu Sim
Ela estava com sua beleza em realce. Toda minha atenção pra ela e todos fazendo coro a isso. Parecia um sonho, sim, parecia um sonho. Eu ali decidido a amar aquela mulher pra sempre enquanto dizia pra mim mesmo que não seria capaz de tanto amor. Logo ela que tanto amor merece, logo eu que tão limitado pra amar sou. Seu olhar parecia me convencer de que havia uma fonte de amor em algum lugar tão perto de nós.
Ah, Deus! Este sempre tão bondoso comigo. Me cercou de mulheres tão especiais. Me deu uma mãe fabulosa, a quem devo muito e jamais conseguirei pagar. Me cercou de irmãs adoráveis e tão disponíveis pra amar. Sem falar nas tantas tias tão queridas e presentes, nas dezenas de primas tão marcantes...
Sim, sou um homem de muitas mulheres. Mas a nenhuma delas escolhi, me foram dadas. E pensar que algum dia eu teria que escolher alguma pra dividir o tanto de vida que ainda teria me deixava tenso. Talvez nunca cri ter capacidade para tanto.
Mas com um empurrãozinho de Deus, escolhi Lucélia, não sem constrangimento, pois ela é muito mais do que eu mereço. Quando olho pra ela, vejo tanta força e doçura, tanta liberdade e dependência, tanta beleza e humildade.
Por isso, naquele dia eu a recebi, não como mais uma mulher, mas como a mulher da minha vida; a recebi como minha esposa, decidido a amá-la, respeitá-la, ser fiel e a me esforçar para ser um homem digno dela, decidido e desejoso de viver com ela todos os dias que ainda tenho pela frente, muitos ou poucos, permitindo que apenas a morte nos separe.
Os trinta primeiros dias já passaram. Que dias felizes! Dizem que pode ser ainda melhor. Então estou ansioso por viver os que ainda virão. Ah, Lucélia, como eu amo você!
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Genial
Estou num deserto desses de filme, desses da Bíblia, desses da África. Quero água e porta de saída. Começo a caminhar sem saber se é a melhor coisa a se fazer. Então, como nos filmes ou nos sonhos, o vento que suspende a areia revela uma dessas lâmpadas que a gente esfrega e liberta um gênio. Ao fazê-lo, claro, eis que surge essa figura mitológica me chamando de amo e agradecendo por tê-lo libertado de seus 3 mil anos de confinamento. Em troca disso, ele diz que pode me conceder 3 desejos.
Pensamentos circulam, vêm e vão, numa velocidade imensurável. Água e minha casa são meus desejos mais instintivos naquele instante. Mas buscando ser um pouco mais cauteloso, eu podia pedir coisas que pudessem trazer algum benefício a longo prazo. Ser rico e poder desfrutar a vida e ajudar muitas pessoas. A cura do câncer, da Aids. O fim da fome na Terra. O fim da violência. Eu queria muito saber o que pedir. Mas queria muito pedir para mim.
Estando naquele lugar sem saída, voltar pra casa já seria um pedido óbvio. Me restavam mais dois. Eu queria muito algo que ajudasse a arrumar a minha vida. Mas ao mesmo tempo queria muito resolver a vida da humanidade. Então, tive uma ideia.
- Seu Gênio, já tenho os três pedidos!
- Pois não, meu Amo, sou todo ouvidos.
- Um: eu gostaria de voltar pra casa. Dois: eu gostaria de ser o homem mais rico do mundo. Três: eu gostaria de encontrar um outro gênio no último dia da minha vida.
Este último pedido eu fiz pensando na oportunidade de ter outros três desejos realizados no fim da minha vida. Depois de desfrutar uma longa vida como um homem rico, eu ainda poderia fazer pedidos que salvassem a humanidade. Como sou esperto!
- Que seja feito como meu Amo deseja!! - bradou o gênio enquanto desaparecia em meio às brumas do deserto.
Subitamente, me vejo em casa, a mesma casa de sempre. Sou um homem rico, penso. Não há pressa. Posso desfrutar a vida. Então resolvi descer para uma caminhada na praia, como de costume. Ao pisar as areias da praia, que muito me lembravam aquele deserto, algo sob meus pés desponta. Ao abaixar para verificar, deparo-me com uma dessas lâmpadas que a gente esfrega e liberta um gênio...
O susto da constatação me fez despertar com o coração acelerado. "Graças a Deus, era um sonho!", foi o primeiro pensamento que me ocorreu. Depois, ainda assustado, voltei os olhos às páginas do livro que adormecera lendo e me deparei novamente com a pergunta "Se você pudesse ter qualquer coisa no mundo, o que pediria?". Ciente da minha incapacidade de responder sabiamente, tentei voltar ao sono.
E enquanto tentava voltar à metáfora da morte, eu pensava na vida diante de mim: minha fé, minha família, minha noiva, meus amigos, meu trabalho. Se esta fosse minha última noite, eu lamentaria não mais vivenciá-los, mas celebraria tê-los vivenciado. Pleno, adormeci...
sábado, 9 de maio de 2009
As mortes da minha vida
No dia que ela morreu estávamos todos na casa da minha tia Gilce. Foi a primeira vez que alguém tão de perto morria. Pra mim, na verdade, foi a primeira vez que a morte fez sentido. Foi de repente. Ela sofreu um infarto. Tinha apenas 62 anos. Fui ao enterro e fiquei parado um bom tempo olhando pro seu corpo inerte no caixão. Eu tinha a sensação de que se ela quisesse, ela poderia se levantar. Era só fazer força. Pensava cá comigo: "Tá aí deitada porque quer". Acho que não entendia como se morre.
Depois disso, lembro-me da morte de um menino que morava no meu prédio. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e ele uns 4. Se chamava Glauber e sua mãe se chamava Raquel. Sua família se dava muito bem com a minha. Lembro de uma vez que sua mãe me pediu que o levasse até em casa. Fui conduzindo-o pelas escadas. Ele usava botas ortopédicas. Tinha um cabelo comprido e usava um rabo de cavalo. Enquanto subíamos as escadas do prédio, eu o assustava dizendo que tinha um bicho no final do corredor. Ele chorava e eu desmentia. Até assustá-lo novamente no corredor seguinte. Ficou doente e morreu. Não por minha causa. Já era mesmo doentinho. Tão menino. Fui ao enterro e me lembro de suas meias brancas e sua tia acariciando-lhe os pés. Não achava que estivesse ali deitado porque quisesse. Mesmo vivo, não parecia ter força pra morrer.
Quando eu estava na segunda série, morreu um menino da minha escola. Se chamava Orlando e era namorado de uma menina da minha sala que se chamava Adriana (como alguém que está na segunda série já tinha namorado?!). Era uma segunda-feira. Cheguei na escola e estava um alvoroço. Finalmente haviam encontrado o corpo do menino. Ele saiu para pescar na semana anterior e se afogou. O corpo ficou desaparecido por alguns dias. Rumamos todos da escola para acompanhar o resgate. Ilha do Pontal. Lembro de ter visto seus pés quando os caras do rabecão passaram com seu corpo coberto por plástico preto dentro de um caixão de aço. Não o conhecia.
Um tempo depois, não mais que dois anos, morreu meu tio Jonjoca, irmão da minha mãe. Eu tinha 10 anos, ele 42. Novo, mas a essa altura já tinha 9 filhos. Morreu do nada, diríamos. Estava internado, e quase de alta, por conta de uma úlcera. Morreu num sábado de maio, dia 13. Estávamos em casa e meu primo Claudinho foi quem nos trouxe a notícia. Lembro do choro da minha mãe. Lembro também de ter ido ao velório. Fomos juntos eu, mamãe, tia Gilce e tio Joel. Lá chegando, seu corpo estava no caixão ainda sem flores. Vestia uma bermuda jeans. Era um tio legal. Adorava contar piadas e zombar das pessoas. Lembro de tia Dilma ornamentando o caixão. Mas não fiquei para o sepultamento.
Quando eu estava na sétima série, morreu Marta, uma menina da minha sala. Ela ficou doente e faltou muitas aulas. Alguns amigos mais chegados fomos visitá-la em casa. Ela era uma menina tímida e muito pobre. Não era tão boa aluna. Era do meu grupo nos trabalhos, mas nunca aparecia em nossos encontros. Talvez por causa da saúde. Soubemos que foi internada por causa de uma rubéola. As férias do meio do ano acabaram e ela não voltou às aulas. Alguns de nós fomos ao hospital visitá-la e levamos flores. Não nos deixaram entrar. No mês de agosto ela chegou a aparecer na escola algumas vezes. Mas depois voltou pro hospital e morreu no dia 15 ou 16 de setembro. Toda a sétima série foi dispensada para ir ao seu sepultamento. Marta da Silva Pinna, 14 anos. Sua mãe parecia profundamente abatida, mas chorava em silêncio. Isabela, uma menina da turma que mal conhecia Marta, estava histérica. Chorava e desmaiava e ninguém entendia a razão. O dia seguinte na escola foi estranho. A mesa dela vazia. Ninguém falava no assunto.
Eu morava numa vila. Eram quatro casas. Exatamente na casa ao lado morava uma senhora que tinha dois filhos: Luciana e Otávio. Não demorou muito pra que Tavinho e eu nos tornássemos grandes amigos. Passávamos muito tempo juntos, ora na minha casa, ora na casa dele. Às vezes eu pedia pra minha mãe levá-lo aos nossos passeios. Ele ia. Ele era bonito e as meninas gostavam dele. Minha irmã era uma delas. Acho até que namoraram. Um dia, Tavinho e eu brigamos feio num jogo de futebol. Nunca mais nos falamos. Sua família se mudou da vila. Eu o via de vez em quando na rua. Quando ele tinha 17 anos, ficou doente, muito doente, hepatite. Foi internado no Antônio Pedro. Fugiu do hospital. Morreu um tempo depois. Menino ainda. Não me conformei em vê-lo tão jovem naquela morte. Sua mãe era o próprio sofrimento em pessoa. E eu lamentei ter brigado com ele por razões tão idiotas.
Quando eu tinha 27 anos experimentei a mais viva de todas as mortes. Tia Célia. Minha quase-mãe. Ela tinha só 62 anos. Ficou seriamente doente aos 61. Mesmo percebendo o que estava acontecendo, fui pego de surpresa. "Tia Célia morreu" era uma frase que nunca queria ter pronunciado. Deixou um vácuo. Um silêncio. Sua morte dispersou muitas histórias. Foi no ano 2000. Eu sempre desconfiei que algum mundo ia acabar no ano 2000.
E naquele mesmo ano foi-se Janderson, um amigo muito querido, casado com Allynne. Ele tinha só 29 anos. Foi trabalhar, passou mal, foi pro hospital e morreu. Ah, como era bom bater papo com ele. Culto, leitor voraz, amante de boa música e dono de bela voz. Eu soube de sua morte uma semana depois. Foi tudo muito rápido e Allynne não conseguiu avisar. Sem tê-lo visto morto, fico com a sensação de que viajou pra longe.
Então morreu Vovó Maria. Foi em dezembro de 2005, um dia antes de completar 103 anos. O sepultamento foi no dia do seu aniversário. Não me lembro de nenhum dia em que vovó Maria estivesse doente. Fora a lucidez consumida pelo tempo, era uma velhina saudável. Aos 100 anos, ainda era possível encontrá-la lavando louças ou roupas. Como era bom conversar com ela. Me contava muitas histórias sobre minha infância. Sentar ao lado dela era como viajar no tempo. Tive a honra de dirigir o culto em seu funeral e, junto com todos os presentes, entoar uma canção que ela vivia cantarolando, cujo refrão dizia Precioso pra mim é Jesus/Precioso pra mim é Jesus/Eu confesso na vida e na morte/Que tudo pra mim é Jesus.
Fernando também era um amigo querido. Ele e Clarissa se casaram logo depois do diagnóstico do câncer. Ficaram casados 3 anos. Quase não nos encontrávamos. Era alegre e manso, bonito, jovem e muito amado pela Clarissa. Mas estava morrendo. Queria muito viver, mas não ousava reclamar da morte. Em 18 de agosto de 2006, completou 30 anos. Lucélia e eu fomos à festa, numa pizzaria da Ilha. Lá, reclamou comigo do meu sumiço e disse que o havia abandonado. Doeu aqui dentro. Então resolvemos marcar de passar uma tarde juntos no dia 28, era quando eu podia. Cheguei à sua casa, mas não estava mais. Tinha ido pro hospital no dia anterior, e morreu no dia seguinte. Ah, como esperei pelo dia 28...
E há quase 3 meses, foi a hora de Lúcia Melo de Jesus. Era de Jesus mesmo. Nos conhecemos, creio eu, em 1995, quando eu ainda era estudante. Sua irmã, Sônia, fazia parte do Alfa & Ômega e envolveu Lúcia conosco. Ela mergulhou. Ia a todos os Congressos. Foi conosco ao Panamá, Cabo Verde. Sempre externou o apreço que sentia por mim. Adorava servir e reclamar. Me divirtia muito com ela. Depois de um tempo foi morar nos Estados Unidos e por lá ficou vários anos. Voltou ano passado, se não me engano. Nos vimos apenas uma vez desde que voltou. Em 19 de janeiro me mandou um email dizendo que estava muito feliz que eu ia me casar e querendo saber onde estava a lista de presentes. Em 19 de fevereiro Sônia me mandou um email comunicando seu falecimento. Pensei comigo: "Deus, por favor, deixa as pessoas viverem!"
Certamente, houve outras perdas ao meu redor. Outros tios, outros avós, conhecidos... Sei lá porque menciono essas e não aquelas. O escritor israelense Amós Oz diz que "vivemos até o dia em que morre a última pessoa que se lembra de nós". Então, se ainda não morri eu, também não morreram eles.
E na verdade, nunca morrerei eu, pois Jesus ainda vive... e se lembrou de mim.
"Porque se vivemos, vivemos para o Senhor. Se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor." (Romanos 14:8)
sábado, 11 de abril de 2009
Arrependimento
de fotografar a vida,
vou vivê-la.
Desisto pra sempre
de temer a morte,
vou bani-la.
Desisto pra sempre
de olhar pro sol,
vou retê-lo.
Desisto pra sempre
de esperar o céu,
vou trazê-lo.
Desisto pra sempre
de chorar a dor,
vou doer com ela.
Desisto pra sempre
de ser poeta,
vou dançar na chuva.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Re-existência
Ele não fora planejado nem desejado. A gravidez foi como uma dessas coisas que acontecem quando menos possibilidade há de acontecer. Milagre, diria. Seus pais já estavam separados havia dois anos. O rapaz partira deixando para trás uma jovem e sonhadora mulher e suas duas filhas que mal andavam.
Dois anos de desejos arrefecidos. Dois anos de silêncio e expectativa. Dois anos de descaso e indiferença. Dois anos de espera. Dois anos de fuga. E num belo dia, eis que ressurge o homem procurado, esperado, desejado. Sem poder resistir à volúpia, revivem o amor e ela imagina ter de volta seu homem. Uma tarde inesquecível. Uma única tarde em dois anos.
Algumas semanas depois, a improvável gravidez é constatada. “Quem sabe ele não volta pra mim de verdade?” – sonhava a sonhadora. “Impossível esse filho ser meu. Foi só uma tarde!” – se esquivava o jovem que um dia dissera “até que a morte nos separe”.
Ela então volta à realidade do abandono, do descaso e do medo de criar sozinha os três filhos. Interromper a gravidez parecia ser a saída mais viável. “Esse remédio é bater e valer!” – garante o balconista da farmácia. “É um menino!!” – anuncia o médico. “Nasceu com saúde?” – pergunta a mãe temerosa. “Perfeito e saudável.” – tranqüiliza o primeiro homem a tocar no menino. “Obrigada, meu Deus, e me perdoa por ter tentado... Bem, o Senhor sabe.”. E naquela sala foram sublimadas todas as demais inquietações.
Em casa, ele se tornara a alegria da família, embora sua chegada tornasse ainda mais difícil a vida de sua jovem mãe. Acordava no meio da noite chorando, ora de fome, ora com dor de ouvido ou cólicas. Como saber a razão daquele choro? Aos poucos ela ia conseguindo decifrar as reclamações. Toda a família precisava se ajustar às necessidades daquela pequena criatura incapaz de expressar claramente seus sentimentos; incapaz de pedir para ir ao banheiro; incapaz de preparar a própria comida ou sequer de comê-la sozinho; incapaz de entender que sua dedicada mãe precisava descansar, que outras pessoas também precisavam dormir.
Mas a mãe estava orgulhosa daquelas três incapazes criaturas. Ela os amava simplesmente por serem dela. Eram seus, de mais ninguém. Ainda que eles não fossem capazes de fazer nada para merecer esse amor, ela os amava porque era da sua natureza amá-los. E era da natureza deles não merecer e carecer de amor.
O pai nunca voltou. O menino cresceu. Virou homem. Encontrou um Pai e ganhou um anel e novas sandálias. Encontrou-se finalmente com a pessoa que planejara e desejara aquela tarde inesquecível mais do que ninguém. Ter pai era novidade e não sabia muito bem como isso funcionava. No começo, quando se comportava mal, ficava com medo e se afastava. Mas não levou muito tempo para que aquele menino, agora homem, percebesse que todo amor e cuidado que recebera da sua mãe eram uma amostra grátis do ilimitado, grande e, também gratuito, amor do Pai.
Foi se dando conta de que seu Pai se importava, amava e cuidava dele não porque era (ou tentasse ser) um bom filho, nem porque estava disposto a obedecer, mas porque pertencia-lhe, e era da natureza do Pai dar aos seus enquanto dormiam. Diariamente necessita ser lavado de suas sujeiras. Tantas vezes ofendera a seu Pai, envergonhara seu nome. Muitas outras, mesmo desejando ajudar, acabava por atrapalhar, como o filho que quer ajudar o pai a lavar o carro, mas tudo que faz é sujar ainda mais.
Freqüentemente volta ao Pai envergonhado, cabisbaixo por ter errado mais uma vez, por tê-lo ofendido de novo, mesmo tendo prometido que nunca mais o faria. E encontra o Pai de braços e sorriso abertos lhe dizendo: “Vem cá, meu filho, deixa que eu cuido disso”. Que constrangedor, que transformador.
Ele sabe que o Pai o ama e que deseja vê-lo crescer, mudar. E esse amor o motiva a querer ser melhor, mesmo sabendo que os sorrisos, abraços e festas do Pai não estão condicionados a se tornar uma pessoa melhor. E esse amor está acabando com ele.
O filho responde e cresce lentamente. Algumas vezes pára, pensa em desistir. Quando desanimado, triste e sem esperança se lança ao Pai, este lhe conforta dizendo: “Sossega esse coração, meu filho. Estou plenamente satisfeito com você e plenamente comprometido em terminar o que comecei em sua vida... Deixa isso comigo."
Então o filho sai por aí falando pra todo mundo sobre o incrível Pai que tem. Dizendo que ele quer ter mais filhos, que pode adotar quantos filhos quiserem ser adotados, e que na casa do seu Pai tem quarto, cama, comida e roupas novas pra todo mundo...terça-feira, 9 de setembro de 2008
Míope de Coração
As lentes dos meus primeiros óculos eram de um grau e meio. "Como esse menino conseguiu viver tanto tempo com toda essa miopia?", espantou-se o oftalmologista depois da constatação. Quando pus os óculos pela primeira vez, mal podia acreditar no que estava vendo. A resolução do mundo era muito melhor do que eu pensava... Um milhão a mais de megapixels!
Já tinha até me esquecido que era possível ver São Jorge montado em seu cavalo lá na Lua. Vi que era possível enxergar o letreiro do ônibus antes de me dar conta que o havia perdido... Era possível ver o sorriso do amigo que vinha ao longe... Era possível ver o que estava escrito no quadro-negro mesmo estando sentado ao fundo da sala! Eu podia enxergar a sujeira nas unhas dos meus pés. Meu Deus, que mundo novo!
Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que eu não era míope. E nesse tempo o céu tinha estrelas, as nuvens tinham forma de bichinhos. Era uma época em que eu não precisava me preocupar com o letreiro dos ônibus nem com a sujeira das unhas... E à medida que fui crescendo, o mundo foi embaçando. Acho que pensava que era próprio do crescimento e fui me acostumando a não ver muito longe. Pra mim, o mundo era mesmo assim e todos viam exatamente como eu.
Quando alguém dizia ser capaz de enxergar além do meu alcance eu não acreditava ou passava a considerar tal pessoa anormal. Só passei a acreditar nas pessoas quando comecei a usar óculos. Eles são meu companheiro inseparável há 21 anos, e sem eles não enxergo um palmo à frente do nariz. Suas lentes atualmente têm seis graus e meio. Sem eles fico limitado ao meu umbigo, ao meu quintal, ao próximo passo...
Recentemente, porém, descobri que sofro de outro tipo de miopia - a do coração. Não posso precisar o grau, mas não é pequeno. Ela faz meus sentimentos parecerem confusos. Macula minha perspectiva da vida e minha visão de Deus. Ao mesmo tempo em que me faz acreditar que o que vejo é a realidade e o que outros enxergam é distorção. Meu enganoso coração pensa que é são e sábio. No entanto, a Bíblia diz que ele sofre de uma doença incurável. ¹
Antes de me dar conta de que era míope de coração, meu mundo era preto ou branco, as pessoas eram boas ou más, minhas convicções mais bíblicas do que a dos outros, e minhas certezas inabaláveis; ganhar e perder, viver e morrer, duvidar e crer, liberdade e fé eram antônimos; amor e prazer, sinônimos. Enxergava um Deus previsível, melindroso e desapontado.
Aos poucos fui entendendo que tudo que sei de Deus é caricatural. É Ele, eu sei. Mas não é tudo que Ele é. Meu míope coração enxerga uma imagem embaçada, às vezes distorcida, e a única chance de conhecê-Lo melhor é chegando mais perto. De longe não vejo Seus olhos, não enxergo Seu sorriso e me privo das expressões de Seu rosto. Ficar perto é tudo que preciso.
Estar consciente dessa miopia não me cura, pelo contrário, a faz mais real. Porém, me ajuda a não precipitar as conclusões, a não julgar os demais corações e evitar as categóricas afirmações. Me faz crer na diversidade, amar as diferenças e reconhecer a necessidade do outro e a dependência do Único.
Para a miopia dos olhos existem os óculos. Para a do coração, apenas a constatação e a esperança. Constatação de que "Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho... Agora conheço em parte". E esperança de que "então, veremos face a face... conhecerei plenamente, da mesma forma que sou plenamente conhecido."²
Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que meu coração era cego. E nesse tempo não existia céu nem esperança...
Notas:
¹ Jeremias 17:9
² 1 Coríntios 13: 12
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Futuro do Pretérito Mais Que Perfeito
Não moraria em outro lugar senão no Jardim Miriambi, na Rua Vicentina Goulart, casa 34, Fundos. Cresceria ali naquele quintal cheio de vida e confusão - cheio de crianças e adultos exuberantes. Cada café da manhã seria um evento e domingo seria dia de pôr roupa de sair, apenas pra ficar no portão ou na frente da casa. Apenas pra tornar o dia ainda mais especial e solene.
Eu teria os mesmos vizinhos. Cercado de Maria por todos os lados. Brigaria com todos que briguei, brincaria com todos que brinquei e defenderia a todos que defendi. Eu teria medo dos pierrôs no Carnaval, teria raiva do mascarado conhecido que galenteava a minha mãe e continuaria acreditando que um dia meu pai ia voltar.
Eu moraria numa casa de apenas 2 cômodos, dormiria numa cama feita com 3 cadeiras. Tentaria várias vezes dormir sem tomar banho e juraria todas as vezes já ter tomado.
Eu amaria minha família e acreditaria que as pessoas mais importantes da minha vida moravam naquela casa. Eu adoraria aquela vida de criança e acreditaria que todos naquele quintal eram felizes e não tinham problemas. Eu continuaria crescendo e vendo o mundo com novos olhos. Ficaria ansioso pra começar a escola, mas choraria no primeiro dia de aula quando minha mãe fosse embora.
Eu me esforçaria pra ser um bom aluno e deixar minha mãe orgulhosa. Teria vergonha de fazer perguntas na sala de aula e continuaria me esforçando pra nunca constranger ninguém. Eu teria medo de ir ao banheiro da escola e me deparar com a "mulher loira", teria medo de ser raptado pelo "velho do saco" e morreria de medo de brigar na rua.
Eu evitaria as más companhias e os caminhos errados. Eu amaria minha tia Célia como a minha mãe e me deixaria influenciar por sua fé, mas só me renderia ao Senhorio de Jesus aos 18 anos.
Eu estudaria nas mesmas escolas, faria Letras na UFF e lá conheceria um grupo chamado Alfa e Ômega, e com ele me envolveria de corpo e alma. Eu teria muitos amigos e seria amigo de muitos. E um dia entenderia que Deus estava me chamando para ser missionário e obedeceria.
E hoje eu olharia pra trás e desejaria que muitas coisas tivessem sido diferentes. Me arrependeria de muitas escolhas, decisões, ações e omissões. Mas se me fosse dada a oportunidade de voltar no tempo e mudar alguma coisa, recusaria só pra não correr o risco de estar em outro lugar, fazendo outra coisa, com outras pessoas...
Continuaria grato a Deus pela vida, família, amigos e ministério. Continuaria O amando, seguindo o Seu Filho, perseguindo Sua santidade, anunciando Sua mensagem e aguardando Sua volta.
Creria em Sua Palavra e destacaria num blog um verso que diz que no Seu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda.
Eu viveria no futuro do pretérito mais que perfeito.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Minha Escolha Ponto Com
Durante o culto, tudo adquiria um significado diferente pra mim. Não achava mais tudo tão entediante como tantas outras vezes que fui a uma Igreja. Mas eu ainda precisa esperar por aquele momento em que o Pastor perguntaria quem ali queria entregar sua vida a Jesus. E já quase no final daquela celebração dominical, eu me vi com as mãos estendidas. Tendo crido já em meu coração, naquela noite de 14 de outubro de 1990, estava confessando com meu lábios que Jesus Cristo é o Senhor.
Eu não tinha idéia das implicações daquela decisão. Acreditava que dali em diante tudo ia ser diferente. Acreditava que iria me tornar uma pessoa melhor, que não pecaria tanto, que seria um melhor filho, melhor aluno, melhor amigo, melhor irmão... Bem, ainda estou nesse processo e tenho percebido que ele não vai acabar tão cedo.
Não foi a consciência de que era pecador e que estava indo pro inferno que me levou a Jesus. Mas foi a constação de que minha vida carecia de sentido. O vazio na minha alma era muito grande. Nunca fui atrás de drogas, sexo e rock'n'roll a fim de achar sentido pra minha vida. No fundo, eu sempre cri que só em Jesus esse sentido poderia existir. Mas resistia muito à idéia de "entrar pra Igreja" porque achava que iria perder a liberdade de fazer o que quisesse.
Embora soubesse que era pecador e até acreditasse na existência do inferno, isso não funcionava comigo. Não achava que se tratava de uma escolha apenas entre céu e inferno. Achava que era mais uma escolha entre viver e sobreviver. Eu queria sentido pra minha vida aqui e agora. E na Igreja nunca faltaram promessas de que Jesus transformaria a vida daqueles que iam a Ele. Ele curaria as doenças, não deixaria passar fome, acabaria com o sofrimento, daria um emprego... e tantas outras promessas, legítimas ou não, que se propagam por aí.
Eu tinha 18 anos e minha maior preocupação era de que maneira iria viver os prováveis próximos 50 anos. Por isso, naquela noite eu escolhi crer. Fiz uma escolha pela vida, pelo sentido, pelo futuro próximo e distante. Não me importei com as promessas estranhas que ouvi. Eu estava ali crendo em Jesus, nELe, na vida dEle, nas palavras dEle, no cuidado dEle, na companhia e presença dEle. Mesmo sem ter certeza sobre o significado e as implicações dEle.
Eu não O conhecia. Eu não O entendia. Não tinha a noção exata do meu pecado. Tudo que eu sabia era o meu vazio. Tudo que eu via era minha necessidade. Mas Ele me atraiu. Ele se apresentou a mim do único jeito que eu entenderia: o amigo de quem eu precisava pra dar sentido a minha vida vazia.
A noção de quão pecador eu era e quão incapaz de fazer as coisas do jeito certo veio com o passar do tempo. À medida que fui me chegando mais perto de Jesus, minha condição foi se tornando mais evidente. E hoje me vejo muito mais pecador do que me via há 17 anos atrás. E, portanto, Sua graça faz muito mais sentido hoje do que fazia há 17 anos.
Como disse anteriormente, quando me rendi a Jesus eu não tinha idéia de onde e com quem estava me metendo. Eu não sei dizer de quantas dificuldades e sofrimentos Ele me livrou, mas lembro-me de muitas das quais Ele não me livrou. Não me lembro de todas as orações que Ele me respondeu, mas lembro-me de muitas que ficaram sem resposta, e de algumas que ainda hoje estão. Não me lembro de nenhum dia em que houvesse dinheiro sobrando, mas lembro-me de que Ele nunca deixou de suprir uma necessidade sequer.
Minha vida passou a fazer muito sentido. Mas fui descobrindo que nem tudo na minha vida faz sempre sentido. E passei a entender que nem sempre precisa fazer sentido. No dia 14 de outubro de 1990, Deus iniciou o projeto de me devolver Sua imagem e semelhança. Venho me dando conta de que cada coisa - dificuldade, sofrimento, perda, ganho, alegria, sacrifício, fartura, escassez, morte, nascimento, e tantas outras - faz parte do projeto de Deus que é me tornar mais parecido com Seu Filho, o meu Senhor, Salvador e amigo Jesus, a quem quero imitar, amar e seguir por todos os dias da minha vida, e com quem quero morar por todos os dias da vida dEle.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
O Pedro Nosso de Cada Dia
Ainda hoje, as reações e atitudes do discípulo de Jesus são tema de muitas pregações em nossas Igrejas. Ouvimos sobre sua ousadia, arrogância, coragem, covardia, insensatez, perspicácia, determinação, impulsividade. Temos sido encorajados a ser como Pedro, que ao ouvir o chamado de Jesus, deixou tudo para trás e foi se tornar um pescador de homens. Temos sido advertidos a não ser como Pedro que, por três vezes, negou a Jesus.
Temos a tendência de olhar para os discípulos como homens tão santos que acabamos por não enxergar sua humanidade, diga-se de passagem, tão caída quanto a nossa. Pedro foi um homem normal e, justamente por isso, sua vida está cheia de exemplos a serem seguidos, e de muitos outros a serem evitados. Geralmente, ele dizia tudo o que queria (e o que os outros queriam, mas não tinham coragem!); ouvia tudo o que não queria; não era tudo o que pensava e se tornou alguém que nunca imaginou se tornar.
Num momento vemos um Pedro com um enorme senso de indignidade perante Jesus: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador”. Em outro, com incrível discernimento: “Tu és o Cristo”. Em seguida, com ousadia suficiente para repreender o próprio Messias por ficar falando por aí que iria morrer. Ele teve coragem suficiente para enfrentar um exército com espadas e lanças prestes a prender Jesus, e cortar a orelha de um dos soldados. Mas não encontrou a mesma coragem para assumir sua associação com o Mestre diante de simples cidadãos armados apenas de olhares inquisidores. Que homem incoerente! Tinha acabado de declarar que estava pronto tanto para ir para a prisão quanto para morrer com Jesus. Horas depois fala, afirma e reafirma que não conhece seu Mestre.
Talvez não nos seja possível imaginar o que se passava pela cabeça de Pedro. Ele viu seu Senhor ser preso, julgado, condenado e executado. Nem ele nem nenhum dos seus amigos fizeram nada para impedir. Tudo bem que quando ele largou tudo e foi atrás de Jesus, ele não sabia exatamente onde estava se metendo. Pedro era um homem que amava a Deus e ansiava por ver seu povo livre da humilhante dominação romana. E Jesus parecia ser o homem que poria um ponto final nesta situação, um homem que era saudado nas ruas como Rei, que se declarava Filho de Deus, Messias, Senhor. Um homem que devolveu vista aos cegos, voz aos mudos, vida aos mortos, mas que praticamente se entregou para ser morto. A idéia de um Messias sofredor não tinha nada a ver com a expectativa daquele homem apaixonado. Tudo isso parecia confuso demais para Pedro e os demais. Valeria a pena se arriscar por um homem que não dizia nada em sua própria defesa? Talvez Pedro estivesse começando a perceber que não amava a Jesus tanto assim... Talvez tivesse se enganado a respeito do Mestre.
Mas Jesus amava Pedro e sabia que Pedro, do seu jeito, O amava também. Jesus não o havia chamado por causa de suas habilidades nem por suas qualidades, portanto não o haveria de rejeitar pela falta das mesmas. Se somos incoerentes, Jesus permanece coerente. Se somos infiéis, Ele permanece fiel. Talvez Pedro ainda não soubesse disso e Jesus daria um jeito de deixá-lo saber.
Então, algumas mulheres voltam com uma história mirabolante. Por essa Pedro não esperava. Ele pensava que tudo havia acabado, que deveria voltar para sua vidinha de três anos atrás. Eu posso imaginar a esperança renascendo no coração eufórico de Pedro. Ao correr desesperadamente ao túmulo e encontrá-lo vazio, tudo lhe parece fazer sentido. Imagino que por um instante Pedro esquece sua deslealdade e celebra o maior evento de todos os tempos: “Meu Mestre ressuscitou!”
Por mais quarenta dias Jesus esteve com eles, não andando de um lado para outro, mas agora fazendo umas visitas surpresas. E numa madrugada, Ele aparece na praia onde Pedro e mais alguns estavam pescando, acende uma fogueira e convida os discípulos presentes para comer. Aquela fogueira provavelmente suscitava em Pedro umas lembranças dolorosas. Ele estava em volta de uma fogueira quando seu olhar encontrou o de Jesus após o canto do galo. Havia chegado a hora do confronto, a hora de Pedro reconhecer exatamente em que ponto do caminho se achava.
E numa das cenas mais emocionantes do Evangelho, Pedro começa um novo tempo. “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?” Talvez em outras épocas, Pedro se achasse o melhor, o mais espiritual, o mais corajoso, o que sabia mais, o que amava mais. “Sim, Senhor, tu sabes que te amo.” Jesus usa a palavra agapas, sugerindo um amor mais elevado, sacrificial, o amor que Deus tem. Mas Pedro responde com philo, um amor de amigo, amor humano. E Jesus acrescenta: “Apascenta os meus cordeiros”. O diálogo se repete por duas vezes, mas na última, Jesus não usa agapas e sim philo. E Pedro responde: “Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo”. E Jesus mais uma vez: “Apascenta as minhas ovelhas”.
Imagino Pedro dizendo: “Senhor, não posso continuar fingindo ser um superdiscípulo. Já provei pra todos e pra mim mesmo que não sou tudo que acreditava ser. Além do mais, não há nada que eu possa esconder de Ti. Tu sabes todas as coisas, e sabes que esse é o único amor que posso Te dar.” Pedro estava agora pronto para começar a tarefa. Jesus aceita sua qualidade e nível de amor e ainda o incumbe da maior responsabilidade de todos os tempos. Pedro precisava entender que nesse negócio sua dependência, incapacidade e insuficiência eram condição sine qua non para o sucesso.
E se você conhece a história da Igreja em Atos, já deve saber que tipo de homem Pedro se tornou. Depois de se esvaziar de si mesmo e ser cheio do Espírito Santo, sua vida foi tremendamente usada pra levar milhares de homens e mulheres a Cristo. Esteve preso várias vezes por causa da pregação e, finalmente, morreu crucificado.
Eu encontro muitos vestígios de Pedro na minha vida. Às vezes cheio de coragem para saltar do barco e andar sobre as águas, outras vezes cheio de covardia para dizer: “Não, não O conheço”. De vez em quando também penso de mim mais do que convém: “Estou pronto para morrer contigo, se preciso for.”
Li num livro, que não me lembro qual, uma frase mais ou menos assim: “Não há nada que eu possa fazer para Deus me amar mais, e nada que eu deixe de fazer pra ele me amar menos”. Muitos cristãos passam a vida lutando por algo que já têm: o amor e a aceitação de Deus. E muitas vezes buscam isso através de suas obras. Procuram fazer cada vez mais a fim de se tornarem agradáveis a Deus. Nosso comportamento e nosso serviço são muito importantes para Deus, apenas não são a base pela qual seremos aceitos.
Deus me chamou para cuidar de Seus negócios mesmo conhecendo o nível e a qualidade do meu amor: “Apascenta meu rebanho”. Não estou esperando mudar para aceitar o desafio. Estou tentando deixar o Mestre me conduzir em cada área de minha vida, em cada ambiente que freqüento, em cada sonho que tenho, em cada pensamento que acolho, em cada palavra que exprimo. Quero que me leve a Seus planos, aos lugares que Ele escolher, no momento que Ele quiser e até quando Ele decidir.
Estou consciente de que não estou pronto. Mas não tenho nenhuma dúvida de que “aquele que começou a boa obra em mim, é fiel para completá-la...”. Estou ficando cada vez menos parecido com Pedro, e cada vez mais parecido com Jesus. E a culpa não é só minha. O mérito tampouco.
domingo, 1 de abril de 2007
Primeiro de Abril
Resolvemos dar um passeio pelo Rio com Ieda, que viera de São Paulo. Na volta, já bem tarde, no começo da Ponte Rio-Niterói, em direção a Niterói, um policial rodoviário federal nos faz sinal pra parar. Madaí dirigia. Ele pede pra ver os documentos dela. Nenhuma irregularidade. Ele caminha até a frente do carro e volta informando que a lanterna direita está quebrada.
Madaí fica surpresa com a notícia. Ele percebe sua incredulidade e a chama pra verificar. Ela sai do carro. Ieda e eu ficamos apreensivos. O que vai acontecer? Ele vai nos multar? Vai prender o carro? Passava da meia-noite, como vamos voltar pra casa? Não dá pra ir andando pela ponte. E ônibus não parariam pra gente... Pô, isso era hora de nos parar?! No mínimo esse guarda tá querendo dinheiro...
Quando Madaí chega perto da lanterna, percebe que não há nada de errado. A essa altura as gargalhadas do guarda já tinham interrompido meus pensamentos trágicos. "É primeiro de abril, minha senhora! Peguei você! Tava doido que desse meia-noite pra pegar a primeira pessoa!", diz o "elemento" com tanta felicidade.
A cara de Madaí era de maior incredulidade ainda. A nossa também. Ainda sorrindo, ele acompanha Mada de volta ao carro. "Tem dó, né?", é tudo que ela consegue dizer pra ele, num misto de indignação, alívio e perplexidade.
Seguimos pra casa morrendo de rir. Nunca nenhum de nós pôde imaginar que uma situação dessa poderia acontecer. Voltamos com a sensação de ter participado de uma pegadinha do Faustão. Deve ser mesmo muito entediante ser policial rodoviário. Pelo menos aquele conseguiu um jeito de tornar seu trabalho divertido... às nossas custas.