sábado, 9 de maio de 2009

As mortes da minha vida

Eu tinha 7 anos quando minha vó, mãe da minha mãe, morreu. Tenho algumas lembranças dispersas da vida com ela. Os domingos que íamos à sua casa. Os domingos que ela vinha à nossa. Ela não era muito dada a crianças. Fazia de tudo pra nos manter fora da casa, brincando no quintal. Se irritava fácil com aquele bando de crianças entrando e saindo da cozinha, da sala, do quarto... Era conhecida como Dona Conguinha, embora na minha certidão de nascimento minha avó materna se chame Eutália Oliveira Alcântara.

No dia que ela morreu estávamos todos na casa da minha tia Gilce. Foi a primeira vez que alguém tão de perto morria. Pra mim, na verdade, foi a primeira vez que a morte fez sentido. Foi de repente. Ela sofreu um infarto. Tinha apenas 62 anos. Fui ao enterro e fiquei parado um bom tempo olhando pro seu corpo inerte no caixão. Eu tinha a sensação de que se ela quisesse, ela poderia se levantar. Era só fazer força. Pensava cá comigo: "Tá aí deitada porque quer". Acho que não entendia como se morre.

Depois disso, lembro-me da morte de um menino que morava no meu prédio. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e ele uns 4. Se chamava Glauber e sua mãe se chamava Raquel. Sua família se dava muito bem com a minha. Lembro de uma vez que sua mãe me pediu que o levasse até em casa. Fui conduzindo-o pelas escadas. Ele usava botas ortopédicas. Tinha um cabelo comprido e usava um rabo de cavalo. Enquanto subíamos as escadas do prédio, eu o assustava dizendo que tinha um bicho no final do corredor. Ele chorava e eu desmentia. Até assustá-lo novamente no corredor seguinte. Ficou doente e morreu. Não por minha causa. Já era mesmo doentinho. Tão menino. Fui ao enterro e me lembro de suas meias brancas e sua tia acariciando-lhe os pés. Não achava que estivesse ali deitado porque quisesse. Mesmo vivo, não parecia ter força pra morrer.

Quando eu estava na segunda série, morreu um menino da minha escola. Se chamava Orlando e era namorado de uma menina da minha sala que se chamava Adriana (como alguém que está na segunda série já tinha namorado?!). Era uma segunda-feira. Cheguei na escola e estava um alvoroço. Finalmente haviam encontrado o corpo do menino. Ele saiu para pescar na semana anterior e se afogou. O corpo ficou desaparecido por alguns dias. Rumamos todos da escola para acompanhar o resgate. Ilha do Pontal. Lembro de ter visto seus pés quando os caras do rabecão passaram com seu corpo coberto por plástico preto dentro de um caixão de aço. Não o conhecia.

Um tempo depois, não mais que dois anos, morreu meu tio Jonjoca, irmão da minha mãe. Eu tinha 10 anos, ele 42. Novo, mas a essa altura já tinha 9 filhos. Morreu do nada, diríamos. Estava internado, e quase de alta, por conta de uma úlcera. Morreu num sábado de maio, dia 13. Estávamos em casa e meu primo Claudinho foi quem nos trouxe a notícia. Lembro do choro da minha mãe. Lembro também de ter ido ao velório. Fomos juntos eu, mamãe, tia Gilce e tio Joel. Lá chegando, seu corpo estava no caixão ainda sem flores. Vestia uma bermuda jeans. Era um tio legal. Adorava contar piadas e zombar das pessoas. Lembro de tia Dilma ornamentando o caixão. Mas não fiquei para o sepultamento.

Quando eu estava na sétima série, morreu Marta, uma menina da minha sala. Ela ficou doente e faltou muitas aulas. Alguns amigos mais chegados fomos visitá-la em casa. Ela era uma menina tímida e muito pobre. Não era tão boa aluna. Era do meu grupo nos trabalhos, mas nunca aparecia em nossos encontros. Talvez por causa da saúde. Soubemos que foi internada por causa de uma rubéola. As férias do meio do ano acabaram e ela não voltou às aulas. Alguns de nós fomos ao hospital visitá-la e levamos flores. Não nos deixaram entrar. No mês de agosto ela chegou a aparecer na escola algumas vezes. Mas depois voltou pro hospital e morreu no dia 15 ou 16 de setembro. Toda a sétima série foi dispensada para ir ao seu sepultamento. Marta da Silva Pinna, 14 anos. Sua mãe parecia profundamente abatida, mas chorava em silêncio. Isabela, uma menina da turma que mal conhecia Marta, estava histérica. Chorava e desmaiava e ninguém entendia a razão. O dia seguinte na escola foi estranho. A mesa dela vazia. Ninguém falava no assunto.

Eu morava numa vila. Eram quatro casas. Exatamente na casa ao lado morava uma senhora que tinha dois filhos: Luciana e Otávio. Não demorou muito pra que Tavinho e eu nos tornássemos grandes amigos. Passávamos muito tempo juntos, ora na minha casa, ora na casa dele. Às vezes eu pedia pra minha mãe levá-lo aos nossos passeios. Ele ia. Ele era bonito e as meninas gostavam dele. Minha irmã era uma delas. Acho até que namoraram. Um dia, Tavinho e eu brigamos feio num jogo de futebol. Nunca mais nos falamos. Sua família se mudou da vila. Eu o via de vez em quando na rua. Quando ele tinha 17 anos, ficou doente, muito doente, hepatite. Foi internado no Antônio Pedro. Fugiu do hospital. Morreu um tempo depois. Menino ainda. Não me conformei em vê-lo tão jovem naquela morte. Sua mãe era o próprio sofrimento em pessoa. E eu lamentei ter brigado com ele por razões tão idiotas.

Quando eu tinha 27 anos experimentei a mais viva de todas as mortes. Tia Célia. Minha quase-mãe. Ela tinha só 62 anos. Ficou seriamente doente aos 61. Mesmo percebendo o que estava acontecendo, fui pego de surpresa. "Tia Célia morreu" era uma frase que nunca queria ter pronunciado. Deixou um vácuo. Um silêncio. Sua morte dispersou muitas histórias. Foi no ano 2000. Eu sempre desconfiei que algum mundo ia acabar no ano 2000.

E naquele mesmo ano foi-se Janderson, um amigo muito querido, casado com Allynne. Ele tinha só 29 anos. Foi trabalhar, passou mal, foi pro hospital e morreu. Ah, como era bom bater papo com ele. Culto, leitor voraz, amante de boa música e dono de bela voz. Eu soube de sua morte uma semana depois. Foi tudo muito rápido e Allynne não conseguiu avisar. Sem tê-lo visto morto, fico com a sensação de que viajou pra longe.

Então morreu Vovó Maria. Foi em dezembro de 2005, um dia antes de completar 103 anos. O sepultamento foi no dia do seu aniversário. Não me lembro de nenhum dia em que vovó Maria estivesse doente. Fora a lucidez consumida pelo tempo, era uma velhina saudável. Aos 100 anos, ainda era possível encontrá-la lavando louças ou roupas. Como era bom conversar com ela. Me contava muitas histórias sobre minha infância. Sentar ao lado dela era como viajar no tempo. Tive a honra de dirigir o culto em seu funeral e, junto com todos os presentes, entoar uma canção que ela vivia cantarolando, cujo refrão dizia Precioso pra mim é Jesus/Precioso pra mim é Jesus/Eu confesso na vida e na morte/Que tudo pra mim é Jesus.

Fernando também era um amigo querido. Ele e Clarissa se casaram logo depois do diagnóstico do câncer. Ficaram casados 3 anos. Quase não nos encontrávamos. Era alegre e manso, bonito, jovem e muito amado pela Clarissa. Mas estava morrendo. Queria muito viver, mas não ousava reclamar da morte. Em 18 de agosto de 2006, completou 30 anos. Lucélia e eu fomos à festa, numa pizzaria da Ilha. Lá, reclamou comigo do meu sumiço e disse que o havia abandonado. Doeu aqui dentro. Então resolvemos marcar de passar uma tarde juntos no dia 28, era quando eu podia. Cheguei à sua casa, mas não estava mais. Tinha ido pro hospital no dia anterior, e morreu no dia seguinte. Ah, como esperei pelo dia 28...

E há quase 3 meses, foi a hora de Lúcia Melo de Jesus. Era de Jesus mesmo. Nos conhecemos, creio eu, em 1995, quando eu ainda era estudante. Sua irmã, Sônia, fazia parte do Alfa & Ômega e envolveu Lúcia conosco. Ela mergulhou. Ia a todos os Congressos. Foi conosco ao Panamá, Cabo Verde. Sempre externou o apreço que sentia por mim. Adorava servir e reclamar. Me divirtia muito com ela. Depois de um tempo foi morar nos Estados Unidos e por lá ficou vários anos. Voltou ano passado, se não me engano. Nos vimos apenas uma vez desde que voltou. Em 19 de janeiro me mandou um email dizendo que estava muito feliz que eu ia me casar e querendo saber onde estava a lista de presentes. Em 19 de fevereiro Sônia me mandou um email comunicando seu falecimento. Pensei comigo: "Deus, por favor, deixa as pessoas viverem!"

Certamente, houve outras perdas ao meu redor. Outros tios, outros avós, conhecidos... Sei lá porque menciono essas e não aquelas. O escritor israelense Amós Oz diz que "vivemos até o dia em que morre a última pessoa que se lembra de nós". Então, se ainda não morri eu, também não morreram eles.

E na verdade, nunca morrerei eu, pois Jesus ainda vive... e se lembrou de mim.

"Porque se vivemos, vivemos para o Senhor. Se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor." (Romanos 14:8)

11 comentários:

O Viajante disse...

Que bom que Jesus nunca se esquece de nós. Isso me refresca a alma, saber que tem alguém que se lembra eternamente de mim...
Tema mórbido este texto, porém, me faz refletir que cada pessoa, cada momento pode ser marcanto e único, não vale a pena perder amizades por besteiras, pois não sabemos até onde viveremos nesta Terra.
É, penso que o que vale mais é a intensidade que vivemos, mais que a quantidade de tempo.
Obrigado por me fazer enteder isso....

pati disse...

chorei.

Renner disse...

São quase 4 da manhã. Não sei quantos mortos-vivos ainda carrego comigo.Tive vontade de chorar ao ler esse post e na verdade estou aqui me segurando para nao fazê-lo. Não é choro de tristeza, mas de saudade. Se é que saudade, nesses casos, não seja a tristeza do reecontro nunca alcançado. Belíssimo texto. Tocou, como pouca coisa anda tocando hoje em dia.

Bianca disse...

A morte...
Um dia chega para todos.

Seu texto é muito bom, Gil, mas não há como não utilizarmos como lembrete de nossa própria memória. Ouvindo você citar suas despedidas, lembro-me das minhas.

Acho que nunca perdi alguém da família, ou próximo de verdade. Mas desde muito pequena sempre estive em sepultamentos, caminhando por entre nomes, reconhecendo a brevidade da vida. E posso sentir a textura das sensações que tive ao olhar a dor dos que ficam... sem ter mais a chance de ver aquele que partiu. Nunca mais um abraço ou mesmo um lance de olhar... É a saudade sem volta.
O Chico descreve bem:

"Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu"

Apesar das despedidas, um dia todas as luzes se acenderão, e olhos que dormem acordarão.

Meu lidar com a morte traz uma certa paz... é algo que me faz reencontrar Deus com mais clareza. Que devolve o tino à existência sem sentido.

Obrigada por ter escrito isso, Gil.
Me pôs a refletir bastante... poderia fazer um comentário quilométrico aqui... mas acho que já tá bom.

Que Deus me ajude a amar os que coexistem comigo, a amar tudo que não poderei amar depois das despedidas... [que sempre chegam.]
Até o dia em que seremos só encontro.

beijos

Bianca disse...

Desculpe me estender, mas duas coisas que esqueci de dizer:
"Eu sempre desconfiei que algum mundo ia acabar no ano 2000"
E o trecho sobre a vovó e seus 103 anos de idade... assim como o hino que ela preferia, foram as partes que mais me fizeram engasgar...
emocionada.

Miguel Del Castillo disse...

Caramba gil. preciso dizer que eu tb quase chorei?

poxa.

sabe, lembrei que um dia eu escrevi algo como "os homens inventaram a palavra saudade pra descrever o sentimento mais triste e mais cheio de esperança que existe."

engraçado isso de memória também. você, ao narrar a vida dessas pessoas, está de certa forma dando continuidade à jornada delas, está perpetuando. como diria G. Rosa, "narrar é resistir", talvez até à morte. por isso Deus está sempre narrando... a grande História da Salvação.

abraço

. disse...

Meu amigo, vc é muito bom!
Ri e chorei lendo as mortes de sua vida, e, continuei chorando lembrando das mortes da minha vida.
Obrigada por nos presentear com mais um texto.
bj. amo vc.

Gerhard disse...

eu não gosto da morte, eu tenho medo de encarar isso... no enterro do meu avô, pai do meu pai, eu não quis olhar pra ele no caixão, eu não quis falar nada com ninguém sobre isso, eu não queria ver ele morto, eu fugi dele. seu texto me lembrou disso e me fez pensar bastante. ou ainda vai fazer quando eu estiver na cama pensando antes de dormir.

O Reina disse...

Esse é um dos textos mais relevantes que já li.

Como pode a morte ser tão ruim e ao mesmo tempo nos fazer tão melhores, tão mais vivos?

Ela aponta eternidade e expõe nossas futilidades.

Que Deus nos ajude a viver de verdade!

Artur disse...

Você fala da morte com serenidade, não há holofotes, nem sensassionalismo, mas no fundo, nas entrelinhas, entendi que você, desde pequeno tem um chamado para estar envolvido no Reino de Deus. De que é formado este Reino, senão de muitas vidas?
Aprendi com suas palavras, revivi algumas perdas e que até hoje martelam a mente: porque eu não falei do amor de Deus para ele? ou então: puxa, ainda bem que compartilhei de Jesus para ele.

Elaine do Fábio disse...

Gil, não me canso de ler seu blog, mas esse texto: "as mortes da minha vida" realmente mexe comigo, não só pq vc fala do Nando de forma tão carinhosa, mas pq me coloco no seu lugar qdo penso nas mortes da minha vida.

Gde beijo e acho que deveria colocar seus textos num livro.

Elaine do Fábio